PROCESSO DE TRABALHO

 

ARGILA

Gosto muito de amassar o barro, de modelar, de esculpir. O barro me atrai pelas infinitas possibilidades que apresenta. Sempre apostei na absoluta falta de função dos objetos, nos acabamentos irregulares e nas pinturas foscas que o engobe proporciona.

Na primeira fase de meu trabalho com argila executei objetos com formas irregulares e orgânicas. Artefatos em barro cozido que privilegiavam texturas ásperas e exploravam as formas desiguais.  O acabamento assimétrico sempre foi buscado e as imperfeições valorizadas, seguindo um caminho expressivo que flertava com o informe e no qual, deliberadamente, me afastava da geometria inerente à percepção arquitetônica, à funcionalidade e à racionalidade, até então marcantes em minha trajetória de arquiteta.

No início de 2016 comecei a trabalhar com placas cerâmicas e essa nova maneira de tratar o barro resultou numa mudança momentânea de rumo do meu trabalho. As placas possibilitam a confecção de volumes geométricos, formas puras. Fiquei encantada com as possibilidades das descobertas, o caráter arquitetônico das peças apareceu com réguas e esquadros na marcação dos volumes pretendidos. Comecei a montar formas cúbicas com furos e recortes geométricos.

Cada objeto é estudado em suas proporções com seus cortes e recortes e a totalidade das peças remete a ideia de cidade, seus edifícios, uma cidade fechada, atemporal, abstrata. Ao mesmo tempo, a crueza do barro aponta ainda para esse informe agora domesticado numa continência tensa pela racionalidade geométrica.

Os objetos se relacionam por alinhamentos, proporções, aberturas e cores, marcando essa inflexão em meu percurso à procura de novas poéticas mediante a investigação desse território conturbado entre a materialidade do barro e as geometrias. Os volumes podem ser apreciados individualmente, mas adquirem uma força maior como conjunto.

 

TECIDOS

Paralelamente às experiências com argila, comecei alguns anos depois, a trabalhar com objetos em tecido. Meus trabalhos em tecido são todos costurados à mão e os volumes preenchidos com espuma de silicone. Em alguns são introduzidos elementos como fios, retalhos de tecido, e outros pequenos objetos. Trabalhos em meias de nylon e malhas coloridas nascem de uma experiência gerada pelo trabalho anterior. Como no barro, as novas descobertas geram consequências inesperadas que realimentam o processo. Prossigo sempre explorando formas irregulares num corpo a corpo entre o pensar e o fazer, estudando cada saliência ou reentrância em volumes longilíneos inicialmente e mais tarde passando a outros formatos mais compactos. Acredito que apesar da diferença dos materiais, há uma certa problemática que se mantém nos trabalhos em argila e tecido. Aparece na busca de liberdade do informe, com construções quase escatológicas que remetem a vísceras ou dejetos. Além disso, ressurge no tecido, uma agressividade (falsa porque maleável) das extremidades pontiagudas que emergem em alguns volumes compactos, de modo semelhante a alguns objetos de cerâmica.  Penso também que o humor perpassa tanto os trabalhos em cerâmica como em tecido e, por exemplo, está presente no objeto em cerâmica “Rex” e na série de pernas enfileiradas ou nas cabeças em tecido.